Atlanta recebe nesta quinta-feira um dos confrontos mais intrigantes das oitavas de final da Copa do Mundo: a República Democrática do Congo diante da Inglaterra. No centro da narrativa congolesa está Yoane Wissa, atacante de 29 anos que viveu doze meses de turbulência extrema e chega ao torneio reencontrado com o melhor futebol da vida. Para um jogador que mal pisou em campo pelo Newcastle United na última temporada, liderar a segunda participação histórica do Congo em uma Copa do Mundo é uma reviravolta de proporções consideráveis.
Wissa assinou pelo Newcastle no último dia da janela de transferências do verão europeu por £55 milhões, saindo do Brentford em meio a uma saída que se tornou profundamente desgastante para todas as partes. O clube londrino havia prometido, segundo o próprio jogador em comunicado público, não bloquear sua saída caso recebesse uma oferta razoável - promessa que, no entendimento dele, foi descumprida. Newcastle chegou a dobrar sua primeira proposta de £25 milhões para fechar o negócio no limite do prazo. O mercado europeu de atacantes esteve agitado naquele período, com clubes disputando reforços em diferentes posições - saiba mais sobre a contratação de Manu Koné pelo Arsenal, outro negócio que movimentou a Premier League nessa mesma janela. Fontes do Brentford negaram qualquer acordo verbal ou escrito, e o imbróglio deixou marcas dos dois lados.
Se a transferência foi dramática, o que veio depois foi ainda mais cruel. Antes de treinar um único dia pelo Newcastle, Wissa sofreu uma lesão séria no joelho em uma partida pelas eliminatórias da Copa com o Congo contra o Senegal. Ficou três meses afastado, perdeu as vitórias históricas do Congo sobre Camarões e Nigéria nos play-offs africanos da CAF, e só estreou pelo clube em dezembro, numa vitória por 2 a 1 sobre o Burnley. Optou por não disputar a Copa Africana de Nações, realizada no Marrocos entre dezembro e janeiro, para tentar se firmar no Newcastle - decisão que revelou, em entrevista posterior, ter sido precipitada. "Não esperei o tempo certo para voltar", admitiu ao canal JoelBeyaTV em abril. Mesmo recuperado, Eddie Howe preteriu Wissa sistematicamente, preferindo Anthony Gordon ou o jovem Will Osula como centroavante. O atacante congolês iniciou apenas um dos últimos 22 jogos do Newcastle em todas as competições e marcou somente três gols em 28 partidas pela Premier League na temporada - o mesmo número que já anotou nesta Copa do Mundo em duas semanas.
O herói que o Congo precisava
Wissa chegou ao torneio e foi outro jogador. Contra Portugal, marcou o gol de empate no 1 a 1 que sinalizou que o Congo podia incomodar qualquer adversário. Na decisiva última rodada da fase de grupos contra o Uzbequistão - derrota significaria eliminação -, foi ele quem conquistou e converteu o pênalti do empate quando a seleção congolesa amargava o 0 a 1. Fiston Mayele virou o placar e Wissa fechou a conta com um belo chute de fora da área nos acréscimos, selando a classificação. "Viemos do nada para estar aqui. Agora escrevemos nossa história com uma caneta preta e precisamos ter orgulho", disse o atacante, emocionado, citando também o sofrimento da população do leste do Congo, mergulhado em conflito armado. Poucas declarações num torneio recente carregaram tanto peso real.
Esta é apenas a segunda vez que a RD Congo disputa uma Copa do Mundo. A primeira foi em 1974, quando o país se chamava Zaire e perdeu os três jogos da fase de grupos. O peso histórico do momento não escapa a ninguém no grupo. Wissa é visto como um dos líderes da delegação, e o técnico Sébastien Desabre confirmou isso na véspera do jogo contra a Inglaterra: "O que ele traz nos treinos, sua energia, sua capacidade de movimentação - sim, ele está de volta ao seu melhor nível. Tem sido muito importante para nós."
O perigo que a Inglaterra não pode ignorar
A vitória do Paraguai sobre a Alemanha nas oitavas de final serve de alerta. A Inglaterra sabe que surpresas acontecem e que subestimar adversários africanos em Copas do Mundo cobra um preço alto. No banco inglês estará Ivan Toney, ex-companheiro de Wissa no Brentford - o mesmo Toney cuja suspensão de oito meses pela FA em 2023, por 232 infrações às regras de apostas, abriu espaço para Wissa assumir a titularidade nos Bees e viver a melhor fase da carreira. A ironia do futebol raramente é tão bem construída.
Taticamente, Wissa opera como um centroavante-e-meio, atraindo marcadores com movimentos inteligentes nas costas da defesa e criando espaço para os companheiros. No Congo, forma dupla de ataque com Cédric Bakambu - algo que nunca pôde fazer com Nick Woltemade no Newcastle. Marc Guéhi, Ezri Konsa e John Stones terão trabalho. Um jogador capaz de marcar de pênalti, de cabeça, de fora da área e em transições rápidas não oferece um perfil defensivo único. Depois de tudo que viveu nos últimos doze meses - o ataque com ácido em 2021 do qual se recuperou completamente, a guerra com o Brentford, a lesão antes de estrear, o ostracismo em Newcastle -, Wissa chega ao jogo mais importante da carreira não como um jogador com algo a provar, mas como alguém que finalmente voltou a ser ele mesmo.