Cúmplices na injustiça

bresser pereiraPor Luiz Carlos Bresser-Pereira

A cumplicidade entre Deltan Dallagnol e Moro, entre o promotor responsável pela acusação e o juiz que deve ouvir a defesa e julgar, é gravíssimo. Comprova aquilo que todos sabíamos mas muitos não queriam admitir.

Eu fiquei convencido que os dois estavam mancomunados contra Lula no dia em que houve a condução coercitiva de Lula para depor. Não pela violência contra a liberdade que essa prática da Lava Jato representava. Esse foi uma das violências contra o estado de direito de toda a operação que são inaceitáveis em um país democrático. Mas porque, nesse mesmo dia, um press release da Força Tarefa da operação em Curitiba foi distribuído afirmando que Lula era o líder de toda a corrupção até então descoberta e seu principal beneficiário. Sem apresentar qualquer evidência. Era uma nota à imprensa de alguém que, embriagado pelo sucesso, perdeu a noção de limite. Uma nota na qual eu imediatamente vi e denunciei o caráter político. Outros já vinham dizendo isto antes, mas foi então que percebi que, ao atacar Lula, Dallagnol (e Moro, como ficou agora demonstrado), buscavam se legitimar junto às elites, ainda mais do que já estavam. Para aumentar seu poder e para satisfazer seus interesses pessoais, como ficou claríssimo mais tarde. Aproveitavam-se do fato irracional que uma elite conservadora havia transformado Lula em seu “grande inimigo”.

Agora temos a prova de que juiz e promotor agiam juntos. E que seu principal alvo era Lula. Está, agora, na hora de o Supremo Tribunal Federal anular os processos iniciados pela Lava Jato contra Lula. E punir Dallagnol. Quanto a Moro, deveria se demitir do Ministério da Justiça. Ou, se tivéssemos um presidente digno, ser demitido.

A operação Lava Jato prestou um serviço ao Brasil quando descobriu e puniu esquemas de propina na Petrobras. Quando puniu alguns políticos realmente corruptos como Eduardo Cunha, Sérgio Cabral e Antonio Palocci. E os empresários das construtoras, que, no entanto, logo foram “perdoados” em troca de delações premiadas.

Mas, em relação aos políticos, dos quais o Brasil tanto precisa, logo virou uma caça a aqueles que haviam praticado caixa dois, onde há doações para campanha que não são propinas – não envolvem troca.

Está mais do que na hora de voltarmos ao Estado de direito. De valorizarmos a democracia e elegermos políticos que realmente tenham uma proposta de acordo e projeto nacional. Sem ódios, sem rancores. Depois de tanta miséria o Brasil está precisando de alguma grandeza.

Luiz Carlos Bresser-Pereira é economista, professor, escritor e ex-ministro.


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