O racismo e o extermínio dos jovens negros

Eduardo_EstevamPor Eduardo Antonio Estevam Santos

Esse texto de análise debate a prática racista, a violência urbana e a representação social do negro no Brasil.

Tendo em vista que nas últimas décadas o homicídio tem sido a principal causa de morte dos jovens negros, traçamos um paralelo entre as narrativas do ser negro e a violência. Para o pensamento racista o negro carrega consigo uma verdade codificada em seu corpo, em sua aparência, de forma que suas qualidades estão relacionadas a lógica da raça. A opacidade da humanidade do negro foi produzida pela biologização da raça. Coube a prática racista materializar a subalternização do negro, relegá-lo as condições mais aviltantes da vida social. Ainda que o racismo esteja interligado as estruturas econômicas da sociedade, a transformação dessa estrutura não implica diretamente em seu desaparecimento.

A violência urbana tem gerado inúmeros debates e publicações, não é por menos, pois suas causas são profundas, de modo que conflitos e tensões urbanas nunca desaparecerão por encantamento se não forem removidas suas causas profundas. As narrativas representacionais do negro nos tempos modernos estiveram pautadas no medo das raças infectas, da figura diabólica, cuja existência abjetal era sensivelmente superior aos animais. O momento da colonização pode explicar melhor o surgimento de um conjunto de imagens, representações, símbolos e fantasias negativas do ser negro, herdamos uma estrutura imaginária dos negros e negras criada pelo pensamento racista. Vivemos tão imersos à ideia de raça que essa familiaridade histórica nos leva a achar completamente natural a identificação que fazemos de nós mesmos e dos outros, como negros, brancos, amarelos, índios, a ponto de pouco refletirmos a respeito de que essas categorias são construções históricas e culturais, por vezes forjadas em conjunturas de dominação.

As identidades étnicas são construídas numa dimensão relacional. Os índios e os negros não se autorreconheciam por meio dessas categorias. O outro (o não europeu), que aparece no projeto de modernidade enquanto sujeito histórico foi classificado e hierarquizado. Seus hábitos e suas performances, comparadas às práticas do europeu, foram considerados bárbaros.

A sociedade tem medo dos “bárbaros”. Quando o medo torna-se um perigo iminente para todos, quando ele desempenha um papel central no nosso cotidiano, quando vivenciamos direta ou indiretamente situações de perigo que põe em cheque nossas vidas, as representações estereotipadas sobre o “outro” ganham força, passam a ter “efeito de verdade”. O medo autoriza também em nome de nossa própria proteção que esses sujeitos “desumanos” sejam mortos, mutilados e/ou torturados sem que passe pelo crivo da justiça institucional. Quando se pergunta aos exterminadores porque praticaram tais atos ou infligiram às leis, eles respondem: para nos proteger desses monstros (leia-se sujeitos racializados). Os grupos de extermínios possuem um poder outorgado pelo imaginário racista. Não se trata de negar as potencialidades do comportamento humano para o crime. Pascal já dizia, entre a violência e a verdade nada existe em comum. Quando tudo é permitido no combate à violência a prática do justiçamento começa a confundir-se com o próprio ato violento inicial, o remédio é pior que a enfermidade. Acabamos abrindo mão do pacto republicano que especifica direitos e deveres de cada cidadão.

A construção representacional da imagem do negro como sujeito violento por natureza é uma produção histórica. Um conjunto de representações estereotipadas foi ocupando posições centrais na nossa cultura: feio, violento, preguiçoso, indolente, avesso ao trabalho, propenso a vadiagem, a bebedeira, a capoeiragem, entre outras. O extermínio dos jovens negros tem uma relação direta com as mais variadas representações racistas, uma vez que as mesmas ao serem dotadas de sentido, incidem diretamente na vida das pessoas. Tendo em vista que as raças são ficções, são narrativas praticadas e vivenciadas pelos sujeitos, o poder de construir novas narrativas desracializantes e humanizadoras é muito importante para as organizações negras.

Eduardo Antonio Estevam Santos é professor e doutor em história, além de pesquisador da Fundação Biblioteca Nacional e militante do Movimento Negro Unificado(MNU) de Itabuna-BA.


Terror na França e imperialismo militar

Por Luiz Carlos Bresser-Pereira

Paris, talvez a cidade mais civilizada do mundo, foi atacada pelo organização mais incivilizada de que tenho notícia: o grupo terrorista Estado Islâmico.

Diante do ataque, o presidente François Hollande “declarou guerra” ao grupo. Mas presidente, a França está em guerra na Síria há muito! Primeiro, em conjunto com o Reino Unido, aliou-se a grupos rebeldes sunitas e à Arábia Saudita, onde há uma ditadura muito pior do que a existente na Síria, e deu início uma guerra civil desumana, que já matou centenas de milhares de cidadãos sírios, e está provocando um enorme êxodo de suas famílias.

Esse ataque comandado pela França e o Reino Unido, ao enfraquecer Bachar el-Assad, permitiu que o grupo terrorista, que se originou na guerra dos Estados Unidos contra o Iraque, se fortalecesse na Síria e conquistasse amplos territórios no norte da Síria e do Iraque. A França, então, seguiu os Estados Unidos, e passou a bombardear o Estado Islâmico. A resposta trágica ao imperialismo francês foram os atentados praticado contra os parisienses.

O imperialismo militar foi no passado muito útil, mas o mundo mudou, e, há muito tempo, deixou de fazer sentido – de ser do interesse das potências imperiais. Vimos isto no Iraque; estamos vendo a mesma coisa na Síria. Quando essas potências descobrirão esse simples fato?

Neste quadro terrível, um fato animador. A Rússia fortaleceu-se quando decidiu entrar no conflito e bombardear não apenas o EI mas também os grupos rebeldes associados ao Oeste. Em consequência, os Estados Unidos e a Rússia estão começando a discutir uma saída acordada para o problema da Síria que tenha como participante Bachar el-Assad. Ontem, um grupo de 20 países reconheceram a urgência de uma transição política.

Luiz Carlos Bresser-Pereira é economista, ex-ministro da fazenda e professor.