Itabuna 106 anos! Palmas ou vaias?

Rafael_perfilRafael Bertoldo |rafaelbertoldo2@yahoo.com.br

Bom, este texto tem como proposta um amistoso balanço dos pontos positivos e negativos da cidade de Itabuna, em seu aniversário de 106 anos. Construa a sua crítica também, leitor! O objetivo é: saldar com palmas ou vaias o sopro de 106 velas. Se estivéssemos falando de gente, 106 anos seria uma festa pois, somente chegar até lá, é digno de palmas. À exemplo do saudoso Oscar Niemeyer, que se despediu aos 104 anos, em plena atividade e lucidez. Porém, Itabuna em seus 106, padece com decadente saúde.

Avante! Vamos começar pela parte boa ou ruim? O convite ao pessimismo catastrófico e apocalíptico é sempre maior. Então vamos lá.

Estamos a anunciar o que é sabido por todos. Itabuna é hoje uma cidade com iluminação pública insuficiente, pavimentação e saneamento precárias, sobretudo das periferias, coleta e descarte do lixo inadequados, foco, razoavelmente, “controlado” de endemias como dengue e chikungunya. Vamos falar da violência? Até fomos capa de noticiário nacional sobre esse tema, como cidade mais perigosa aos jovens mas, espera, tem a água salgada do nosso encanamento doméstico também para citarmos, “vixe” e as raríssimas opções de cultura e arte, cadê o cinema, por exemplo, falecido há mais de 15 anos? E o escândalo em nossa empresa de abastecimento hídrico? Além do nível questionável do consciente coletivo dos nossos políticos? Mas olha, pelo menos chove em Itabuna por esses dias…sinal de esperança, face a seca que nos atormentava.

Ai você…pára, reflete, tem parte boa? Qual será? Tem sim “sinhô”!

Estamos entre as 7 economias da Bahia, temos um pólo de serviços e comércio pujante, temos um pólo educacional também vigoroso, faculdades particulares e uma universidade federal; esses pólos são potenciais, não? Estamos, também, no raio de inserção de uma boa universidade pública, a UESC; a praia e cidades de roteiro turístico estão próximas (Ilhéus, Itacaré e etc). E pode apostar leitor, temos um cidadão trabalhador e esperançoso que é o maior bem desta cidade. O itabunense ou aquele que adotou Itabuna, quer ver a cidade nas mãos de bons agentes públicos e políticos e testemunhar a cidade se desenvolver.

O fato é, não há outro caminho para promover os potenciais e minorar as mazelas da cidade a não ser por vias políticas. O voto zeloso e a participação cívica e cidadã do itabunense nas questões políticas e públicas são o segredo do sucesso. Talvez tenhamos raras e honrosas exceções como boas opções de agentes políticos. Concordo. Uma vez me questionaram: “Como votamos consciente, se não temos boas opções?” Minha resposta foi um silente e concordante balançar de cabeça positivo.

Outro fato é, não existe governo corrupto e população honesta, se o governo é corrupto no mínimo a população é passiva e pouco participativa.

Por fim, palmas ou vaias? Palmas!!! Pois, convém não sermos tnem tão otimistas, nem tão pessimistas, mas sim, realistas esperançosos, dizia Suassuna.

Rafael Bertoldo é Economista e Especialista em Gestão Pública Municipal.


Mulher ao volante

Rafael_perfilRafael Bertoldo |rafaelbertoldo2@yahoo.com.br

Caro leitor(a), convido você e a Glória Maria à viajar numa mirabolante teoria da conspiração. A questão central é a ínfima representatividade do sexo feminino no cenário político.

Comecemos examinando, criteriosamente, alguns dados. Segundo o site “Compromisso e Atitude”: nos dez primeiros meses de 2015 foram registrados um total de 63.090 denúncias de violência contra a mulher, dentre violência psicológica, moral e sexual, este dado é virtual, pois estima-se que apenas 20 % das ocorrências são registradas. O escândalo do estupro coletivo no Rio de Janeiro foi um acidente ser revelado.

Bom, prossigamos com a teoria.

Na Câmara de deputados as mulheres são 45, os homens são 468 (Elas: 9,6%) . No Senado federal elas são 12, em exercício, de um total de 81 senadores. (Elas: 14,8%). De acordo com o “Jornal do Senado” na Política, as mulheres do Iraque são 25,2% do total de representantes na corte nacional, no Afeganistão são 27,7% e em Moçambique 39,2%. Logo, estão em melhor situação do que as brasileiras.

Bom, partamos para nossa realidade local. De repente aqui temos um pouco mais de maturidade assertiva com relação aos gêneros.
Na cidade de Itabuna dos 21 vereadores, 2 são mulheres (Elas: 9,5%); das 14 secretarias, 3 pastas são coordenadas por mulheres (Elas: 21,4%). A última presidente da Câmara dos vereadores foi Dona Rosalina Molf de Lima, em 1973.

Bom, vamos examinar a Cidade de Ilhéus, a princesinha do Sul com seus 482 anos, deve ter uma consciência coletiva e representativa mais avançada e madura.

Na cidade de Ilhéus dos 19 vereadores, 0 (zero) são mulheres; das 19 secretarias e departamentos executivos, que possuem status de secretaria, apenas uma (01) é assumida e coordenada por uma mulher.
Recentemente na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), localizada entre os dois municípios supracitados houve uma denúncia de assédio sexual gravíssima.

Minha teoria conclui que uma parte de nós são coronéis contemporâneos.

Caro leitor(a) convido-o(a) para fazer a seguinte reflexão: Numa sociedade machista como a nossa, com representação feminina precária e com altos índices de violência contra mulher, como é possível promover espaço igualitário para os gêneros?

Rafael Bertoldo é Economista e Especialista em Gestão Pública Municipal.


Quando a chuva cai

Josivaldo_perfil_facePor Josivaldo Dias

Baldes, tampas, tonel, litro, bacia, e tantos outros equipamentos tem passado pelas mãos e braços dos itabunenses e de pessoas de outras municípios do Sul da Bahia, para aproveitar cada segundo da chuva que molha a terra desta região desde sábado, 02 de julho.

Cem litro, duzentos, quatrocentos… São tantos os relatos de quem aproveita com entusiasmo cada gota de água caída do céu depois de tantos meses sem um pingo de chuva, que só o tempo para explicar. Muita gente nem ligou para as pingueiras de dentro de casa, onde a quase a um ano não se via, e nem se quer lembrava mais que tinha.

A música instrumentada pela chuva e cantada pelos baldes em constantes movimentos, faz o corpo ensopar e os cabelos balançar, para não perder uma gota. É uma dádiva divina. Ou melhor, pode ser o mundo real da escassez vivido na essência.

O sofrimento de tentas famílias pela busca incensante e diária pela água doce, e as notícias ruim do que deveria ter sido feito a décadas e não se fez, tem seu momento de paz. Mesmo sabendo que ainda não dar para chegar ao mar, a pouca água que cai na terra onde sobrou cacau para alguns, e Jorge Amado inspirou suas inscritas, dar uma alivio que acalma a alma pisar no chão molhado. Só Deus mesmo!

Josivaldo Dias é economista e blogueiro.


Profunda insatisfação

bresser pereiraPor Luiz Carlos Bresser-Pereira | Economista

A saída do Reino Unido da União Europeia é mais um sinal da profunda insatisfação do povo dos países ricos contra suas elites econômicas e políticas neoliberais e globais. É um sinal semelhante ao que é dado pelo crescimento dos partidos políticos e dos candidatos de extrema-direita. Os trabalhadores e as classes médias burguesas, que se sentem excluídas do banquete liberal que domina o mundo desde 1980, manifestam assim o seu protesto.

O capitalismo nasceu desenvolvimentista, com o mercantilismo; foi relativamente liberal entre os anos 1830 e 1929; e chegou a seu apogeu no após-guerra, entre 1946 e 1973, então sob a forma de um desenvolvimentismo social-democrático, nos chamados Anos Dourados do Capitalismo. Neste último momento os países ricos souberam aliar a ideia de nação e a solidariedade básica que ela supõe, com a ideia de sociedade civil e de conflito de classes. No quadro da nação, a prosperidade da elite e do povo dependia de um mercado interno grande e seguro, que garantia bons lucros à elite e salários crescentes para os trabalhadores.

O quadro mudou nos anos 1980, com o advento do neoliberalismo. Vemos, então, as elites econômicas perderem a ideia de nação, porque seus lucros não dependiam mais dos lucros obtidos no mercado interno. Ao invés, tínhamos agora empresas multinacionais cujos lucros eram obtidas em grande parte no exterior. Desaparecia para essas elites a ideia de nação. Agora o que importava era ser vitorioso na competição internacional, porque dessa vitória dependiam os dividendos dos rentistas e os altos salários e bônus dos dirigentes das grandes empresas.

Vimos então reformas econômicas violentas, todas voltadas para a liberalização e a privatização. Reformas que deixavam o povo de lado. Porque, agora, segundo a nova verdade, o Estado não tinha mais o dever de proteger o seu povo. Seu único dever era o de garantir o bom funcionamento do mercado, que automaticamente garantiria a felicidade geral.
O povo demorou a perceber que isto era mentira. Que seus direitos e suas conquistas não estão sendo devidamente protegidos. E protestam contra esse domínio do mercado e das suas grandes empresas multinacionais, apresentados pelos políticos como se fosse a única via possível. Protestam saindo da União Europeia, que se identificou com esse neoliberalismo; protestam contra os políticos de centro-direita e de centro-esquerda, que também se curvaram à “verdade” do liberalismo econômico.

O povo demorou a perceber, mas agora está percebendo. E diz seu “basta” da forma que pode. O que está deixando as elites econômicas e políticas liberais perdidas, sem saber onde erraram.

Luiz Carlos Bresser-Pereira é Economista, professor e ex-ministro da fazenda.


De penas, galinhas e perus…

Carlos_eduardo_sodreCarlos Eduardo Sodré | carlossodre2014@gmail.com

Evidente que o atual quadro brasileiro é tão lamentável quanto extremamente sério. Muito mais do que a maioria das pessoas possa imaginar. Seja no que diz respeito à questão política, ou econômica, ou no plano social, cujas sinalizações já se fazem no-tar mais expressivamente. Mas, também, pelo caráter inimaginável dos fatos e suas revelações, é comum pôr-se, nisso, volta-e-meia, uma pitada de humor que não ofusca nem de longe a gravidade da situação.

Há poucos dias, ouvi do queridíssimo amigo (meu e de mais de meia Bahia), Geminia-no da Conceição, desembargador aposentado, sobre os achados das apurações em curso no país, uma definição muito própria, ainda que com forte carga de humor: “Meu caro, quando se puxa uma pena, vem-nos uma galinha”… Verdade pura que se completa com o acréscimo, que ousei agregar: “e quando se puxa uma galinha, vem-nos um peru; e se puxarmos o peru, vem um galinheiro inteiro”…

Numa escalada que até parece interminável, as investigações derredor do que se tem como atos de corrupção vão se espraiando em espirais cada vez mais abrangentes a surpreender, por minuto, a quem por mais pensasse que fosse apenas muito ampla quanto à extensão, profundidade e anterioridade. E à sofisticação metodológica, acres-cente-se…

Uma ressalva se impõe, entretanto: há que se podar exageros e repelir ofensas à lei, já que temos como certo que estamos sob estado de direito. Essa história de que “os fins justificam os meios” pode saciar o apetite dos leigos e dos fanáticos ou hipócritas, mas não deixa de agredir, em ocorrendo, a consciência jurídica. E ninguém está acima do bem e do mal. Ninguém ! Nem julgadores…

Ídolos de barro, falsas vestais, antigos e novos “puritanos”, vão se multiplicando de cambulhada num crescimento tão galopante que ameaçam desmentir a secular exis-tência das exceções que invariavelmente existem para justificar as regras.

É tempo de revelações que certamente prosseguirão a despeito das maquinações que sabidamente se desenvolvem no breu das tocas buscando dar-lhes um final rápido. Mas, também deve ser tempo de reflexões para os que ainda pensam que, a despeito de tudo isso, o Brasil prosseguirá e a nação, por mais transmudações se operem, vai tendo que, caindo, levantando e tornando a cair para tentar reerguer-se, aprender com estes dias tão tempestuosos quanto amargos.

As lições dos tempos, com as quais os escritos bíblicos e a exegese dos historiadores e estudiosos do comportamento humano e da vida dos povos vão servindo aos contem-porâneos de ontem, de hoje e de sempre, desde longe nos chegaram dando a notícia do dilúvio do qual, consta que o Senhor teria se valido para “dar um freio de arrumação” na humanidade de então, sem querer aniquilá-la, selecionando, na “Arca de Noé”, es-pécimes que, ao baixar das águas, construiriam uma nova humanidade. Uma embar-cação grande para que de cada exemplar, ou casal deles, ali se acomodasse e sobrevi-vesse até que a ave que trouxe o ramo da oliveira certificasse haver amainado a longa tempestade.
2.
Os dias de hoje do Brasil, paralelizando e parodiando aquele momento da vida das so-ciedades humanas do remoto passado, parecem sugerir, ainda que no sentido figura-do, estejamos precisando, para nossa vida pública, e privada também, um novo “dilú-vio” que pudesse – até que tudo volte a ser como está, conforme é prudente imaginar… – proceder a grande faxina na alma e na consciência da brasileira humanidade, tentando alijar dali tudo (ou o mais possível se pudesse) o que produziu essa putrefa-ção transversalizada.

Assim é que – convenhamos – nada mais próprio do que aplicar-se a solução do dilú-vio em obséquio da grande faxina de que o país precisa e o momento reclama.
Há, entretanto, como “salta aos olhos “, uma constatação inafastável: a nova arca po-derá ser – como as apurações vão demonstrando – muitas vezes menor que aquela que o Senhor confiou a Noé…

Carlos Eduardo Sodré é Advogado.


O desmonte de Temer

Por Paulo Kliass | Carta Maior

As tentativas de reação política em torno da estratégia do afastamento de Dilma Roussef remontam ao dia seguinte da divulgação dos resultados do pleito de outubro de 2014. As forças que haviam sido derrotadas nas eleições presidenciais passaram imediatamente a perseguir aquilo que passou a ser conhecido como o “terceiro turno”. Face à recusa sistemática de simpatia por parte da maioria da população brasileira, lançaram mão do questionamento do resultado nas urnas, do questionamento das contas de campanha vencedora, da articulação das esferas do Poder Judiciário e do Ministério Público, da conspiração aberta dos principais órgãos de comunicação, entre tantos outros expedientes.

Passado um ano e meio de tamanho bombardeio, lograram alguns avanços significativos. O primeiro passo ocorreu com a aquela cena de triste memória no plenário da Câmara dos Deputados, quando a aceitação preliminar do pedido de impedimento mostrou ao mundo inteiro a qualidade da maioria dos integrantes daquela instância de nosso legislativo. Em seguida, veio a votação também preliminar no Senado Federal, que terminou por chancelar o início do processo sem nenhuma base de indiciamento com base em crime de responsabilidade, conforme determina a Constituição Federal. Em suma, um golpe institucional, forma pela qual as principais fontes da imprensa internacional e a unanimidade dos espaços de articulação diplomática assim o reconhecem.

No entanto, ao que tudo indica não imaginavam que a passagem de Michel Temer pelo Palácio do Planalto pudesse oferecer tamanho quadro de trapalhada, incompetência e acusação de corrupção. As dificuldades enfrentadas pelo presidente interino na montagem de sua equipe ministerial e o retardamento recorrente do início efetivo de seu governo terminam por comprometer o objetivo estratégico do financismo nessa aventura putschista. Afinal, trata-se de promover um desmonte do pouco que resta de um Estado de Bem Estar Social em nosso País e acionar a destruição dos principais instrumentos para eventual implementação de alguma política desenvolvimentista.

Paulo Kliass é doutor em economia pela Université de Paris

Leia MAIS na Carta Maior.


Transversalidade da putrefação

Carlos Eduardo Sodré| carlossodre2014@gmail.com

Roque Aras – ex-deputado, procurador federal aposentado, arguto observador da cena política nacional e figura honrada – em texto recente publicado, revelou a sua triste constatação de que a corrupção que grassa na vida brasileira atinge todos os poderes, em todos os graus e instâncias, fazendo exalar uma podridão sem precedentes.

Dir-se-á que se exerce de forma putrefata numa transversalidade tão absoluta quanto surrealista…

Neste mesmo espaço, na última edição do ano passado da “Tribuna da Bahia”, ousei – com a concordância explícita de mais de três centenas de manifestações recebidas – desenvolver o entendimento de que a crise (ou crises?) brasileira tem raiz numa crise moral sem precedentes, começada, em tese, claro,”na casa de cada um de nós”, traduzida pela degradação dos valores morais e éticos, da própria família, um mal que cresce como que em espirais que se ampliam nos espaços maiores dos grupos vicinais, das comunidades, até chegar à amplitude da dimensão nacional, enquanto a ingenuidade de alguns ou a hipocrisia de tantos esperam por que em Brasília só tenha anjos e santos, como se fosse possível – repito – jacaré parir garça…

Claro e inafastável o reconhecimento de que há exemplares de homens decentes e honrados em to-dos os escalões tanto na vida social quanto na vida política, mesmo na vida econômica marcada pela competição argentária e por vezes feroz. A história mais recente ou mais remota em nosso estado, por exemplo, é referta de homens públicos de excepcional qualidade moral, feitos do barro que faz gente decente e digna. Para não exibir rol mais extenso, que há, permito-me mencionar dois nonagenários baianos: o Prefeito Virgildasio de Senna, com invejabilíssimos 92 anos plenos de lucidez e dignidade e o Governador Roberto Santos, chegando aos 90 no próximo 15 de setembro (que nós, baia-nos, deveremos festejar), exibindo vitalidade, esbanjando honradez e contínua e ativa devoção aos serviços da educação e da cultura.

Eles continuam presentes na vida pública, ainda que já ingressados na história, mesmo após haverem constatado que não podiam continuar a praticar, em detrimento de suas famílias e merecido descanso, o esforço de resistir na luta de, em meio ao lodoçal ético do país, não deixarem – igualmente o fazem as garças – que a dignidade alvar de que são feitos, um e outro, pudesse ser maculada pelo tsunami da degradação moral que inunda o nosso país.

Não há negar, destarte, que a corrupção desgraçadamente vai corroendo de forma avassaladora e ir-refreável as nossas instituições. A inversão de valores é tão grave que não me surpreenderá que de-terminadas palavras, algumas até escritas acima, terminarão excluídas do vernáculo pátrio, expelidas do organismo moral da nação, pois já se percebe com freqüência que muitos conceitos (honra, honra-dez, honestidade, respeito, dignidade, por exemplo) costumam deixar alguns interlocutores embarba-cados como se estivessem a ouvir palavras de outros idiomas…

Esses últimos acontecimentos da vida brasileira – em verdade – são, a um só tempo, tão extraordinariamente chocantes como demolidores, talvez, de alguns dos poucos pilares morais em que ainda se sustenta a nação. É gente querendo discutir política sem ler – nem ter lido – história, com opinião formada ao influxo de lavagem cerebral de canal de televisão; juiz e ministro de cortes de justiça dando voto, sentenças e acórdãos, qual mariposas, debaixo de holofotes de tvs, que antecipam posicionamentos e, ao serem sorteados para julgamentos, exibem a desfaçatez de não se darem por impedidos, além de consagrarem a justiça de “dois pesos e duas medidas” ; sistema partidário falido com partidos políticos enlameados do contínuo ao presidente, até que não disputam cargos majoritários para, à base da chantagem e da barganha, ficarem com os órgãos que mais arrecadam, onde dissipam o erário e saltam do barco do poder, como “ratos de porão de navio” ao perceberem que está “fazendo água”, para uma semana depois retornarem aos mesmos gabinetes, em alguns casos ainda encontrando nos toaletes os mesmos dentrifícios e escovas de dentes que houveram deixado… Por sabe-rem da nossa majoritária falta de memória, zombam dos que a tem por isso que ouve-se tantos “rotos falando de esfarrapados”. Pobre Brasil !..

Para nós que lutamos tanto, em todas as frentes, pela redemocratização do país, para ofertar-lhe uma carta constitucional que pudesse balizar a sua trajetória sócio-econômica e política, é desapontador a vermos rasgada por ministros togados e assistirmos infindáveis espetáculos diários, vergonhosos, de locupletação com o dinheiro público ! Só nos resta pedir a Deus muita fortaleza de ânimo para não permitir que a melancolia e a frustração das constatações nos faça descambar para os vórtices da desilusão dando razão ao vaticínio de Rui Barbosa, para rir da honra e termos vergonha de sermos honestos…

Só nos resta o consolo de ouvirmos a palavra de Paulo – o Apóstolo – e cultivando a quimera de que o país dos nossos netos possa ser menos pior do que os dias em que vivemos, hoje, esperarmos “contra toda a esperança” !

Carlos Eduardo Sodré é Advogado. Artigo publicado no jornal TRIBUNA DA BAHIA


Direita, volver

bernardo mello francoBernardo Mello Franco | Folha de São Paulo | 13 de maio de 2016

A posse de Michel Temer deve marcar a mais brusca guinada ideológica na Presidência da República desde que o marechal Castello Branco vestiu a faixa, em abril de 1964. Após 13 anos de governos reformistas do PT, o país passa ao comando de uma aliança com discurso liberal na economia e conservador em todo o resto. O eleitor não foi consultado sobre as mudanças.

O cavalo de pau fica claro na escalação do ministério, que sugere desprezo à representação política das minorias. Ao substituir a primeira presidente mulher, Temer montou uma equipe só de homens, o que não acontecia desde a era Geisel. Os negros também foram barrados na Esplanada.

O Ministério da Educação foi entregue ao DEM, partido que entrou no Supremo contra as ações afirmativas. A pasta do Desenvolvimento Social, responsável pelo Bolsa Família, acabou nas mãos de um deputado do PMDB que já se referiu ao benefício como uma “coleira política”.

Para a Justiça, Temer escolheu o secretário de Segurança de São Paulo. Ele assume com explicações a dar sobre violência policial e maquiagem de estatísticas de criminalidade.

A fauna do Planalto também mudou radicalmente em poucas horas. Além dos políticos que restaram ao seu lado, Dilma Rousseff se despediu cercada por gente de esquerda, como sindicalistas, ex-presos políticos e militantes de movimentos sociais.

A chegada de Temer encheu o palácio de representantes da direita brucutu do Congresso, como os deputados Alberto Fraga e Laerte Bessa, da bancada da bala, e o ruralista Luis Carlos Heinze, que já se referiu a quilombolas, índios e homossexuais como “tudo que não presta”.

Depois do pronunciamento de estreia, o presidente interino se reuniu a portas fechadas com líderes religiosos e parlamentares evangélicos. Estavam presentes os pastores Silas Malafaia e Marco Feliciano, que defendem ideias como o projeto da “cura gay”. Eles voltaram para casa entusiasmados com o novo regime.

Bernardo Mello Franco é jornalista.


A força da violência racial contra a farsa do 13 de maio!

Eduardo_EstevamEduardo A. Estevam Santos | eduardoestevame@hotmail.com

A história e a historiografia já demonstraram e reconheceram as múltiplas, continuas e moleculares resistências dos negros/as ao sistema escravista, a primeira identificou os conflitos e negociações, a segunda, os sentidos e as experiências subjacentes às narrativas dos escravizados.

O temor da “haitinização” do Brasil determinou os projetos de imigração e o fim do tráfico. Entre as décadas de 1860 e 1870 tornou-se bastante comum os crimes cometidos por escravizados contra seus senhores, administradores, feitores e respectivas famílias. A recusa do jangadeiro cearense a transportar escravos, a proliferação de centros, associações e caixas de emancipação escrava, as lutas individuais e coletivas dos abolicionistas, principalmente dos abolicionistas negros (Luiz Gama, José do Patrocínio, André Rebouças, entre outros), constituíram-se num fluxo, numa potência micropolítica abolicionista fazendo com que o 13 de maio de 1888 não passasse de uma farsa.

Alguns meses depois de assinada a famigerada lei Áurea uma comissão formada por libertos do Vale do Paraíba denunciou publicamente que a legislação do fundo de emancipação de 1871 – que previa recursos do governo imperial e responsabilizava os proprietários de escravos – não havia sido cumprida, especialmente no caso da parcela do imposto a ser destinada à educação dos filhos dos libertos. Ao final da carta os libertos prenunciavam: “Para fugir do grande perigo que corremos por falta de instrução, vi-mos pedi-la educação para nossos filhos e para que eles não ergam mão assassina para abater aqueles que querem a República, que é liberdade, igualdade e fraternidade”.

Os negros/as encontravam-se completamente desterritorializados frente à sociedade concorrencial capitalista no contexto pós-abolição, tinham que agenciar suas ações políticas para que a exclusão, a discriminação e a seleção em nome da raça e do racismo não permanecessem ativos e estruturantes, uma vez que, jogados a própria sorte os negros/as estavam convencidos que não estariam em segurança se o inimigo vencesse, e esse inimigo não tem cessado de vencer.

Eduardo A. Estevam Santos
é Doutor em História Social e professor da Unilab


A luta pela democracia não acabou

Por Yulo Oiticica

No auge da sua juventude, a democracia brasileira sofreu neste 12 de maio de 2016 um grande golpe. A abertura do processo de impeachment pelo Senado afasta uma presidente honesta e sem crimes de responsabilidade, constituindo-se um atentado contra a plenitude, amadurecimento e fortalecimento da nossa democracia. A presidente Dilma Rousseff foi condenada injustamente.

Hoje vivenciamos uma das mais terríveis violações à soberania do povo brasileiro, que elegeu Dilma Rousseff com mais de 54 milhões de votos. A democracia brasileira sofreu uma derrota e o retrocesso toma lugar maquiado de democracia, mas, na realidade baseado na velha política dos senhores de engenho, das oligarquias cafeeiras, filhos dos militares de 64, donos dos grandes meios de comunicação do pais e fazendeiros escravocratas.

Hoje a democracia teve o seu maior propósito alterado, prevalecendo o número de votos no Congresso antes da vontade popular. O impeachment contra a presidente Dilma Rousseff menosprezou os alicerces da democracia, deixando de lado a eleição direta, limpa e livre. Desprezou-se hoje a manifestação, nas urnas, da vontade do povo.

Mas, mesmo neste cenário de conseqüências incomparáveis, a luta continua. É preciso respeitar o voto dos mais de 54 milhões de brasileiros e brasileiras e, por isso, não vamos abaixar a cabeça. Não permitiremos o retrocesso nas conquistas históricas e sociais, o ódio ao trabalhador, o preconceito, a desigualdade e a violência social que caracterizou a luta de classes no Brasil ao longo dos séculos. Hoje, mais do que nunca, fica claro a necessidade da luta em defesa da democracia e de uma sociedade para todos e todas.

Os governos do Partido dos Trabalhadores (PT) promoveu um avanço inédito na história social do nosso país, reparando injustiças históricas, priorizando políticas públicas do povo e para o povo, promovendo igualdade e dignidade social. Somos um exército de guerreiros em defesa da democracia e da justiça social e faremos oposição direta a este governo golpista, ilegítimo, neoliberal e destruidor das conquistas trabalhistas e sociais do Brasil.

Viveremos para ver a condenação dos golpistas e a retomada democraticamente da vontade do povo à presidência da república. A luta história de tantos brasileiros e brasileiras por liberdade e igualdade de direitos não acabou, mas se fortaleceu a caminho de uma democracia madura e salutar. Portanto, companheiros e companheiras, vamos às ruas defender o desenvolvimento, a justiça social, vamos defender a democracia! Vamos ao bom combate! Avante.

Yulo Oiticica é Ouvidor Geral do Estado, ex-deputado estadual, e Pré candidato à vereador de Salvador.