Memórias póstumas de um país em crise

Rafael_perfilRafael Bertoldo | rafaelbertoldo2@yahoo.com.br

Caros(as) leitores, meu último artigo data de julho de 2016, após processos de profundas e sinistras mudanças e reformas em nosso país, eu tinha entrado em rota de fuga para as colinas. Pois bem, fui resgatado após um estágio como ermitão tentando compreender o surgimento e rápida proliferação (como os “Gremlins” – 1984 – filme de Steven Spilberg) de leis injustas e justiça considerada ilegal.

O brasileiro, cidadão, trabalhador sente-se como num campo minado de crises. Crise econômica, crise política, crise da educação, crise da saúde, crise da segurança, crise do emprego…enfim, crise dos “diachos”.

Destacando das últimas crises, a da segurança que eclodiu no Estado do Espírito Santo, revelando criminosos que andavam entre nós, travestidos de civis, porém eram, realmente, saqueadores oportunos (essa crise também é ética de foro íntimo); a crise da Previdência, que a mídia e políticos tentam nos convencer da “necessária” reforma drástica e prejudicial ao trabalhador assalariado, sem uma auditoria mista (interna e externa) para apuração dos principais “ralos” da previdência; e a mais nova crise, a da carne, que é resultado de uma operação da P.F. cujo nome é sugestivo: “A carne fraca”, revelando as entranhas de uma máfia inescrupulosa e poderosa da produção e distribuição de carne bovina e correlatos no Brasil, que inclusive é um fiel da balança comercial internacional brasileira (mais uma crise, agora internacional!).

No cenário de tantas crises, está o contribuinte brasileiro, o pobre coitado com salário achatado, sente-se fantasiado de palhaço pelos maus políticos e empresários desonestos que golpeiam duramente a nossa minguada reserva de esperanças.

Saliento que reformas estão sendo apontadas como remédios amargos, porém “eficientes” para algumas crises. Eis que surge após um exército de P.E.C.’s (Propostas de Emendas Constitucionais) e leis que sepultam direitos e benefícios dos trabalhadores…a famigerada Reforma da Previdência. Logo, o que fazer contra a tirania déspota do Governo de um presidente ilegítimo? Ahh eu tenho a resposta: oxigenar e renovar a Câmara e o Senado! Pois são por elas que passam essas mudanças, não votar novamente, e jamais, em saqueadores do nosso país; e se foram feitas tantas e profundas mudanças em tão pouco tempo para o mal, que não percamos a esperança de que outras tantas e profundas mudanças poderão vir a ser efetuadas para o bem, isso com uma Câmara e Senado renovadas e progressistas. O início do fim dessa escória de maus políticos, começa na próxima tecla de confirma do seu voto.

Como na célebre obra de Machado de Assis “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, este enredo é narrado por um brasileiro após a morte decorrente de múltiplas crises do seu povo/país, porém eu acredito que existe vida após a morte, e o que me conforta é que eu não acredito sozinho.

Rafael Bertoldo é Economista e  Especialista em Gestão Pública Municipal


A “nova” questão dos juros

paulo-killassPaulo Kliass | CARTA MAIOR

Há décadas que a sociedade brasileira tem convivido com um fenômeno que chama muito a atenção de todos os que pretendemos compreender a economia a partir de uma ótica diferente daquela que a ideologia do financismo impõe como a suposta regra natural da economia de mercado.

Nesse caso refiro-me mais especificamente à trajetória de nossa taxa de juros. Já foi dito e repetido à exaustão que o Brasil tem proporcionado aos agentes econômicos locais e estrangeiros a maior taxa de juros do planeta. Com raras e pontuais exceções de um ou outro mês, ao longo dos últimos anos temos ocupado o primeiro lugar no pódio. Em alguns momentos, chegamos a ser ultrapassados pela Turquia ou pela Rússia. Mas, via de regra, para qualquer investidor capitalista que busque a maior rentabilidade financeira para suas aplicações, a opção Brasil tem despontado como a melhor alternativa isolada.

A principal causa para tal comportamento tem sua explicação na manutenção da política monetária arrochada. Desde a edição do Plano Real, em 1994, que a opção pelo chamado “tripé da política econômica” trouxe consigo o estabelecimento da taxa oficial de juros em um patamar bastante elevado. Assim, naquela época a intenção era justamente a de manter a SELIC na estratosfera, para obter o ingresso de recursos estrangeiros e assegurar alguma folga nas contas externas.

Taxa de juros elevada: outra jabuticaba

Ocorre que o instrumento excepcional – que deveria ser utilizado apenas nas primeiras etapas de consolidação do plano de estabilização da nova moeda – terminou por se acomodar como sendo “a política monetária natural” por excelência. Essa mentalidade exagerada do financismo fincou raízes e conseguiu se impor ao conjunto da sociedade como sendo um custo inescapável da luta contra a inflação e do progresso associado à condição da modernidade. Dessa forma, questionar o absurdo evidente da política monetária tupiniquim teria o sentido de sabotar a estabilidade de preços e não passaria de irresponsabilidade populista.

Todo esse processo de mudança profunda na própria estrutura social e econômica trouxe consigo uma enxurrada de transformações retrógradas. Essa foi com a privatização, a liberalização comercial, a sobrevalorização da taxa de câmbio, o aprofundamento da financeirização e a desindustrialização que o País infelizmente experimentou ao longo das duas últimas décadas. Assim como a sociedade brasileira havia incorporado uma estratégia de convivência com processos hiperinflacionários por meio de mecanismos generalizados de indexação, na sequência houve um movimento de acomodação extensiva a um ambiente perverso de taxas de juros elevadíssimas.

Na verdade, tudo se passa como se o conjunto das forças atuantes por aqui se tivessem tornado dependentes – de natureza quase química – das taxas de retorno muito acima de qualquer patamar minimamente condicionado por algum grau de racionalidade. Por qualquer abordagem que se buscasse enfocar o fenômeno, a taxa de juros em nossas praias revelava-se como campeã absoluta.

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Paulo Kliass é  doutor em Economia pela Universidade de Paris 10 e Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal.


Fernando Gomes sinaliza intenção de privatizar Emasa

erik-maiaPor Erick Maia

Como era de se esperar, foi lançando, no Diário Oficial do Município de Itabuna, ontem (24), a criação do conselho gestor de Parcerias Público-Privadas (PPP). Pelo que tudo indica, trata-se da primeira medida do governo municipal no sentido de privatização da Emasa.

Isso é lamentável e mais uma vez fica claro o interesse privado em detrimento da coletividade. Recentemente fizemos um grande esforço para que o Governo do Estado da Bahia assumisse a operação do sistema de água e esgotamento sanitário, inclusive com absorção de todo o quadro de funcionários da Emasa, mas que, infelizmente, a Câmara de Vereadores rejeitou.

Na ocasião, pela proposta do convênio de cooperação entre o Estado e o Município, o governador Rui Costa havia se comprometido em realizar todos os investimentos necessários para universalização do saneamento em Itabuna.

É bom lembrar que uma das ações mais importantes para que o município de Itabuna tenha segurança hídrica, está sendo conduzida pelo Estado da Bahia com a construção da barragem no rio Colônia, orçada em mais de R$ 100 milhões.

Estávamos convencidos, e ainda estamos, que a solução para os nossos desafios em saneamento básico passava por uma parceira pública que não implicasse em aumentos exorbitantes na tarifa de água, que penaliza principalmente a população mais carente, e que não houvesse demissões de trabalhadores. Não temos dúvidas que tudo isso é improvável com a parceira privada, uma vez que, sem dinheiro público, todos os custos dos investimentos serão repassado diretamente ao consumidor e, certamente, a grande maioria dos trabalhadores serão demitidos.

A título de exemplo, países importantes como a Argentina, Itália e França fizeram o caminho inverso da privatização do saneamento, por entender, dentre outros argumentos, mas principalmente, que a água é um recurso natural estratégico e fundamental e que, assim, deve estar sob o controle estatal.

Portanto, não deixaremos que os interesses de grupos políticos que, por vezes, misturam-se aos interesses privados, prevaleça sobre o interesse do conjunto da sociedade. Estamos preparado para fazer o debate, e demonstrar, que a privatização da Emasa é uma cilada e que não garante melhoria no abastecimento de água a exemplo da cidade de São Paulo. Por adiar investimentos, a SABESP, no intuito de atender aos interesses de investidores privados, fez com que a sua população sofresse uma grave crise de desabastecimento. Isso sem deixar de destacar o enorme problema que é a poluição do rio Tietê.

Entretanto, acreditamos ser possível o diálogo com os vereadores e o executivo municipal, para que o prefeito de Itabuna possa rever essa posição de implementação de Parceria Público-Privada, que, na verdade, é uma privatização disfarçada.

Finalmente, reiteramos e mais uma vez defendemos como alternativa à privatização, que o Governo do Estado da Bahia assuma a operação dos serviços de água e esgotamento sanitário em Itabuna, logicamente, condicionada ao compromisso de absorção dos trabalhadores da Emasa, da dívida da empresa e da destinação de parte da arrecadação dos serviços de água para o município.

Erick Maia é dirigente regional do Sindae.


Ramon se mudou da terra

Por Adroaldo Almeida

No meio da década de 1980 eu cheguei a Itabuna para estudar e trabalhar. Era bancário e sindicalista, mas queria ser escritor. Por revés da sorte, acabei advogado e político, uma lástima. Naquele tempo, transitava na senda da arte entre Buerarema e Ilhéus uma trupe felliniana: Jackson, Betão, Alba, Eva, Gideon, Gal, Delmo, Zé Henrique e, naquela miríade estrelar, ele, claro, RAMON VANE, o mais cênico de todos.

A figura de um pintor holandês do século XVII, a recitação de um menestrel medieval e a presença carismática de um franciscano. Um astro rasgando o céu da Mata Atlântica. Nosso Rimbaud trovando no alto da proa de um barco bêbado, singrando os mares e domando as ondas naquela temporada no inferno, atirando poesias contra a estação da ditadura ainda presente.

Eu o encontrava quase todas as noites no curso noturno de Direito da FESPI. Fomos colegas e contemporâneos, nos códigos e na decodificação da Justiça, mas “as leis não bastam, os lírios não nascem da lei”, como aprendemos com Drummond e escrevemos o nome tumulto na pedra. Era tímido na faculdade, nunca o encontrei no DCE, mas enxergava-o de soslaio num canto da biblioteca do Departamento de Letras, onde ambos acorríamos à procura da consolação na palavra. Porém, como ele sabe agora, jamais encontramos um bálsamo, conforto ou doçura na provisoriedade dessa condenação da existência. Talvez nessa travessia, na eternidade de serafins e cítaras, ele possa declamar todo seu lirismo sem a azáfama e a urgência dos dias terrenos.

Neste domingo acordei com uma mensagem de Gideon Rosa: “Ramon se mudou da terra hoje de madrugada”. Assustado, levantei mudo e pasmo, e essas reminiscências me afloraram durante toda a manhã. Daqui de Itororó, lamentavelmente, não pude ir ao sepultamento, então, mando rápidas e atropeladas letras na ambição de contribuir para desentortar as veredas no seu caminho ao paraíso.

Ramon Vane era um artista, eu me lembro!

Adroaldo Almeida é escritor, advogado e político
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A nova Ceplac esperada, após 30 anos de crise

juvenalPor Juvenal Maynart

Quando a Ceplac foi criada, a revolução verde se baseava em agrotóxicos, as bibliotecas usavam somente papel, a genômica ainda não existia, computadores só eram vistos no seriado O túnel do tempo, e as redes eram apenas instrumentos de pescadores ou de balanço para um bom descanso. A Bahia tinha uma única universidade e apenas dois doutores em ciências agrárias.

O mundo mudou; a Ceplac, idem. Se o mundo e a nossa instituição mudaram, o que estaria errado para que se justifique uma nova Ceplac? A resposta está no tempo do verbo. Sim, o mundo não mudou – o mundo muda a cada instante, todos os dias. A Ceplac, não. Ela mudou, mas parou de mudar. E isso é um atraso imensurável, na era da Tecnologia da Informação e Comunicação, mesmo que a última mudança tenha ocorrido há dez dias ou há dez anos.

A Ceplac que estamos buscando, em parcerias com o mundo da ciência, inovações e academia hodiernas, terá na Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) e na e-agricultura as ferramentas da instantaneidade. Estão aí a GigaSul e a Rede Nacional de Educação e Pesquisa – RNP, do MCTI, para proverem o fazer científico em altíssima velocidade.

Sim, queremos uma ciência viabilizada por meio de redes digitais, a transparência e soluções instantâneas dos editais pautando suas demandas, e extensão por aplicativos. Queremos respostas imediatas, visto que o produtor não tem porquê esperar uma visita “in loco”. O custo tempo nas presenças físicas serão exceções.

A Ceplac tem inserção produtiva nos dois principais biomas de mata e floresta do país – a Mata Atlântica e a Floresta Amazônica. Tanto numa região como noutra, o espaço produtivo será o definidor das necessidades. A roça de cacau cederá lugar a um espaço produtivo, complexo, que tanto produzirá amêndoa quanto chocolate, madeira certificada em casos específicos, ou turismo rural. Com tecnologia e informação em tempo real, surgirá um novo produtor, consciente das potencialidades de seu espaço. Um produtor que perseguirá a sustentabilidade de seu negócio e terá na Ceplac o agente fomentador e o suporte tecnológico de que necessita para gerar riquezas.

O Brasil possui uma vasta legislação que busca zero trabalho escravo e uma legislação trabalhista (CLT) que garante ao trabalhador o respeito aos seus direitos. Tem uma indústria consolidada. Uma rede de educação ampliada e inclusiva – hoje, um índio concluindo o curso de Medicina não choca, estimula.

Não podemos pensar em criar e incentivar apenas produtores de commodity cacau. Podemos, devemos e seremos dominadores de toda cadeia produtiva. Em rede, com informação, inovação e tecnologia. Teremos chocolateiros e muito mais. O PCTSul (Parque Científico e Tecnológico do Sul-baiano) será estímulo ao empreendedorismo local. Afinal, segundo Schumpeter, “o capitalismo – para vingar – só precisa de crédito e empreendedorismo”.

Para encerrar, fragmento de Tabacaria, do mestre Fernando Pessoa:
Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.

Juvenal Maynart é diretor-geral da Ceplac


PEC 241, o fim da constituição cidadã

ABONG - - Associação Brasileira de Organizações Não GovernamentaisDa Abong

As medidas em votação atualmente no Congresso Nacional, se aprovadas, significarão o fim da Constituição Federal de 1988 e a eliminação dos direitos sociais por ela garantidos. A Carta Magna do país, amplamente discutida e aprovada num processo constituinte que selou o fim da ditadura civil-militar de 1964-1985, consagra os direitos que hoje regem o Brasil e os recursos para financia-los, incluindo os sistemas de saúde público (SUS), de educação pública e de previdência social acessíveis a todos/as os/as brasileiros/as.

A PEC 241 (Projeto de Emenda Constitucional) que está neste momento em discussão na Câmara dos Deputados, colocada como agenda prioritária do governo Temer, trará o desmantelamento da política social do País. A PEC propõe o congelamento dos gastos sociais nos próximos 20 anos, o que atingirá em primeiro lugar as políticas públicas de saúde e de educação.

Estudo do DIEESE mostra que, se esta PEC estivesse em vigor nos últimos 10 anos, nós teríamos gasto menos 47% em educação e menos 26% em saúde: o investimento seria de menos R$ 384 bilhões em educação e menos R$ 290 bilhões em saúde.

Esta PEC tornará o Sistema Único de Saúde (SUS) inviável, assim como impossibilitará a garantia de gratuidade, manutenção e melhoria do ensino público. No caso da previdência social, inviabilizará o piso dos benefícios, que, pela Constituição, é de um salário-mínimo.

Na prática, esta PEC obrigará os/as cidadãos/ãs brasileiros/as a pagar por planos/seguros privados de saúde e que os estudantes paguem, por exemplo, os estudos universitários. A saúde e a educação deixarão progressivamente de ser públicas e serão transferidas para o setor privado; o maior programa social do Brasil desde 1988, a previdência social, será seriamente prejudicado, atingindo especialmente os mais pobres e as novas gerações.

Além de significar retrocesso e perda de direitos, a questão é que esta PEC baseia-se em um argumento totalmente falacioso: ao contrário ao que tem sido divulgado pelo Governo Temer e pela grande mídia, esta medida não resolverá o problema das contas públicas no país e há muitas alternativas apresentadas que eles se recusam a, sequer, considerar. O maior gasto público atual é com a dívida pública e o pagamento de seus juros.

Em 2015, por exemplo, os gastos com saúde e educação foram em torno de R$ 100 bilhões cada um, mas o pagamento de juros foi de R$ 500 bilhões. Sobre este gasto, a PEC não diz nada. Tampouco discute-se outras alternativas tributárias para aumentar arrecadação – impostos progressistas, taxação de grandes fortunas, regulação efetiva do sistema financeiro. Ou seja o objetivo desta emenda constitucional é retirar recursos da área social, essenciais para as pessoas mais pobres, deixando intocáveis os grandes grupos concentradores de riqueza no Brasil.

Por isso, em defesa da Constituição, em defesa dos direitos garantidos nesta Constituição, nos somamos à todas as vozes que se manifestam contra esta Emenda Constitucional e nos comprometemos a somar forças com outros setores da sociedade na luta contra esta Emenda Constitucional.

Saúde sim, juros não!
Educação sim, juros não!
Previdência Social sim, juros não!

Brasil, 10 de outubro de 2016.

Abong reúne   Organizações em Defesa dos Direitos e Bens Comuns


PEC 241, carga tributária e luta de classes inversa

bresser pereiraPor Bresser Pereira

Há várias maneiras de definir o neoliberalismo, mas talvez a maneira mais simples é dizer que é a ideologia da luta de classes ao inverso. No passado o comunismo foi a ideologia equivocada dos trabalhadores ou dos pobres contra os ricos; desde os anos 1980, no mundo, e desde os anos 1990, no Brasil, o neoliberalismo é a ideologia da luta dos ricos contra os pobres.

Não de todos os ricos, porque entre eles há empresários produtivos, ao invés de meros rentistas e donos de empresas monopolistas, que ainda estão comprometidos com a nação – a associação de empresários produtivos e trabalhadores de cada país na competição com os demais países. Mas dos ricos rentistas que perderam qualquer compromisso com a ideia de nação e se sentem parte das “elites globais”.

A luta de classes neoliberal tem um objetivo geral: reduzir os salários diretos e indiretos dos trabalhadores. Os salários diretos através das reformas trabalhistas; os salários indiretos através da redução do tamanho do Estado ou a desmontagem do Estado Social através de reformas como a proposta a emenda constitucional PEC 241, que congela o gasto público exceto juros.

O objetivo dessa emenda não é o ajuste fiscal, que é necessário, mas a redução do tamanho do Estado, que nada tem de necessária. Ao contrário do que afirmam os economistas liberais, a carga tributária brasileira não tem crescido e não há uma crise fiscal estrutural: apenas uma crise fiscal conjuntural. Desde 2006 a carga tributária gira em torno de 33% do PIB. Seu grande crescimento ocorreu no governo Fernando Henrique Cardoso: ela cresceu de 26,1% em 1996 para 32,2% em 2002.

Um capítulo impressionante dessa luta de classes de cima para baixo está hoje sendo travado no Brasil através da PEC 241, que visa a desmontagem do Estado Social brasileiro – ou seja, reduzir em termos per capita seus gastos com educação e saúde. Com o aumento da população e do PIB os recursos para esses dois fins necessariamente se reduzirão em termos percentuais do PIB e em termos per capita.

Hoje, um grande número de entidades de classe patronais postaram nos grandes jornais um manifesto a favor da PEC. Paradoxalmente, entre elas estão muitas entidades representando os empresários industriais, embora, entre 1990 e 2010, as empresas industriais tenham sido as maiores prejudicadas pela política econômica liberal-conservadora adotada nos governos FHC e Lula-Meirelles. E também pela política desenvolvimentista populista de Dilma (2011-14).

Entendo a insatisfação dos empresários industriais – uma espécie em extinção no Brasil – com o governo Dilma, mas para mim sua incapacidade de criticar o rentismo e a financeirização globalista, que tomaram conta do governo Temer, é um sinal de sua profunda alienação em relação a seus interesses e aos interesses nacionais.

Bresser Pereira é economista e professor.


Os desafios da governança associativista entre prefeitos

Luciano_Veiga_perfil

Luciano Robson Rodrigues Veiga

Aproxima-se um dos dias mais importantes, para o destino político e administrativo dos municípios. Com a constituição de 1988, os municípios são considerados parte da organização político-administrativa da República Federativa do Brasil, autônomo no termo da constituição.

Como ser autônomo, com um Pacto Federativo, tão perverso, onde as obrigações foram de fato, repassadas aos municípios, nas mais diversas áreas, como saúde, educação, infraestrutura, segurança, dentre tantas outras, como fazer frente a tantas demandas com poucos recursos. Recursos estes que a União não deu a mesma velocidade e densidade de repassar aos municípios.

Podemos afirmar, que do ponto das obrigações a fazer, os municípios foram e estão sendo obrigados a atuar, quer seja, pelas obrigações constitucionais, as acordadas em convênios, as judicializadas, obrigações estas, dever do Estado e direito do Cidadão.

As implementações das políticas sociais, tão importantes, passam pela ação dos municípios. Somam-se a esse quadro de demandas, os problemas urbanos, saneamento, resíduos sólidos, mobilidade urbana, segurança, distribuição e abastecimento de água, que necessariamente obriga aos gestores, a planejar além do seu espaço territorial.

Não dá para o gestor público municipal ter uma postura de gerir ilhas. Mesmo que os problemas sejam do seu município, vivemos em um mundo de conexão metropolitana.

A cooperação entre prefeitos da mesma região, que seja através das Associações e/ou Consórcios Públicos dos Municípios, tornou-se fundamental, para que haja uma reação política, visando que os Governos, Federal e Estadual, conjuntamente com os municípios repactuem (Pacto Federativo e Reforma Tributária), e que esse novo pacto, dê equidade entre os entes, permitindo, assim, aos municípios exercer com qualidade, eficiência, eficácia e efetividade as suas obrigações.

As associações e os consórcios se apresentam como núcleos de governança compartilhada, capaz de produzir os efeitos de escala, ou seja, atender a demandas, que os municípios isoladamente não têm e não terão condições de atender, otimizando recursos e minimizando despesas.

Os governantes municipais da nossa região precisam entender que esta batalha, não poderá ser travada na trincheira, no espaço territorial do seu município, é preciso ir mais além, as soluções dos problemas apresentados, na maioria das vezes, estão fora das quatro linhas do seu território.

Fazer o dever de casa é uma obrigação, saber trabalhar em cooperação com os seus pares é a construção de uma governança capaz de produzir frutos que atenda as mais diversas obrigações.

Os Estados estão se movimentando em bloco, alguns deles, importantes da federação em estado de pré-falência, se uniram para garantir novos recursos, e provocar a reconstrução de um Novo Pacto Federativo, Reforma Tributária, dentre outras reivindicações. E os municípios? E a luta municipalista? Como participar destes debates? Somente através da união dos gestores municipais, via as suas entidades representativas, é capaz de se fazer presente a essa mesa FEDERATIVA.

Luciano Robson Rodrigues Veiga é Administrador, Especialista em Planejamento de Cidades, Coordenador Executivo da Amurc, do Consórcio Litoral Sul e Presidente do Comitê de Bacias Hidrográficas do Leste | luciano.veiga@hotmail.com


Itabuna 106 anos! Palmas ou vaias?

Rafael_perfilRafael Bertoldo |rafaelbertoldo2@yahoo.com.br

Bom, este texto tem como proposta um amistoso balanço dos pontos positivos e negativos da cidade de Itabuna, em seu aniversário de 106 anos. Construa a sua crítica também, leitor! O objetivo é: saldar com palmas ou vaias o sopro de 106 velas. Se estivéssemos falando de gente, 106 anos seria uma festa pois, somente chegar até lá, é digno de palmas. À exemplo do saudoso Oscar Niemeyer, que se despediu aos 104 anos, em plena atividade e lucidez. Porém, Itabuna em seus 106, padece com decadente saúde.

Avante! Vamos começar pela parte boa ou ruim? O convite ao pessimismo catastrófico e apocalíptico é sempre maior. Então vamos lá.

Estamos a anunciar o que é sabido por todos. Itabuna é hoje uma cidade com iluminação pública insuficiente, pavimentação e saneamento precárias, sobretudo das periferias, coleta e descarte do lixo inadequados, foco, razoavelmente, “controlado” de endemias como dengue e chikungunya. Vamos falar da violência? Até fomos capa de noticiário nacional sobre esse tema, como cidade mais perigosa aos jovens mas, espera, tem a água salgada do nosso encanamento doméstico também para citarmos, “vixe” e as raríssimas opções de cultura e arte, cadê o cinema, por exemplo, falecido há mais de 15 anos? E o escândalo em nossa empresa de abastecimento hídrico? Além do nível questionável do consciente coletivo dos nossos políticos? Mas olha, pelo menos chove em Itabuna por esses dias…sinal de esperança, face a seca que nos atormentava.

Ai você…pára, reflete, tem parte boa? Qual será? Tem sim “sinhô”!

Estamos entre as 7 economias da Bahia, temos um pólo de serviços e comércio pujante, temos um pólo educacional também vigoroso, faculdades particulares e uma universidade federal; esses pólos são potenciais, não? Estamos, também, no raio de inserção de uma boa universidade pública, a UESC; a praia e cidades de roteiro turístico estão próximas (Ilhéus, Itacaré e etc). E pode apostar leitor, temos um cidadão trabalhador e esperançoso que é o maior bem desta cidade. O itabunense ou aquele que adotou Itabuna, quer ver a cidade nas mãos de bons agentes públicos e políticos e testemunhar a cidade se desenvolver.

O fato é, não há outro caminho para promover os potenciais e minorar as mazelas da cidade a não ser por vias políticas. O voto zeloso e a participação cívica e cidadã do itabunense nas questões políticas e públicas são o segredo do sucesso. Talvez tenhamos raras e honrosas exceções como boas opções de agentes políticos. Concordo. Uma vez me questionaram: “Como votamos consciente, se não temos boas opções?” Minha resposta foi um silente e concordante balançar de cabeça positivo.

Outro fato é, não existe governo corrupto e população honesta, se o governo é corrupto no mínimo a população é passiva e pouco participativa.

Por fim, palmas ou vaias? Palmas!!! Pois, convém não sermos tnem tão otimistas, nem tão pessimistas, mas sim, realistas esperançosos, dizia Suassuna.

Rafael Bertoldo é Economista e Especialista em Gestão Pública Municipal.


Mulher ao volante

Rafael_perfilRafael Bertoldo |rafaelbertoldo2@yahoo.com.br

Caro leitor(a), convido você e a Glória Maria à viajar numa mirabolante teoria da conspiração. A questão central é a ínfima representatividade do sexo feminino no cenário político.

Comecemos examinando, criteriosamente, alguns dados. Segundo o site “Compromisso e Atitude”: nos dez primeiros meses de 2015 foram registrados um total de 63.090 denúncias de violência contra a mulher, dentre violência psicológica, moral e sexual, este dado é virtual, pois estima-se que apenas 20 % das ocorrências são registradas. O escândalo do estupro coletivo no Rio de Janeiro foi um acidente ser revelado.

Bom, prossigamos com a teoria.

Na Câmara de deputados as mulheres são 45, os homens são 468 (Elas: 9,6%) . No Senado federal elas são 12, em exercício, de um total de 81 senadores. (Elas: 14,8%). De acordo com o “Jornal do Senado” na Política, as mulheres do Iraque são 25,2% do total de representantes na corte nacional, no Afeganistão são 27,7% e em Moçambique 39,2%. Logo, estão em melhor situação do que as brasileiras.

Bom, partamos para nossa realidade local. De repente aqui temos um pouco mais de maturidade assertiva com relação aos gêneros.
Na cidade de Itabuna dos 21 vereadores, 2 são mulheres (Elas: 9,5%); das 14 secretarias, 3 pastas são coordenadas por mulheres (Elas: 21,4%). A última presidente da Câmara dos vereadores foi Dona Rosalina Molf de Lima, em 1973.

Bom, vamos examinar a Cidade de Ilhéus, a princesinha do Sul com seus 482 anos, deve ter uma consciência coletiva e representativa mais avançada e madura.

Na cidade de Ilhéus dos 19 vereadores, 0 (zero) são mulheres; das 19 secretarias e departamentos executivos, que possuem status de secretaria, apenas uma (01) é assumida e coordenada por uma mulher.
Recentemente na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), localizada entre os dois municípios supracitados houve uma denúncia de assédio sexual gravíssima.

Minha teoria conclui que uma parte de nós são coronéis contemporâneos.

Caro leitor(a) convido-o(a) para fazer a seguinte reflexão: Numa sociedade machista como a nossa, com representação feminina precária e com altos índices de violência contra mulher, como é possível promover espaço igualitário para os gêneros?

Rafael Bertoldo é Economista e Especialista em Gestão Pública Municipal.