A política nas pequenas cidades: uma breve análise sócio-histórica

fabio_juniro_geografiaPor Fábio Júnior da Luz Barros

A política partidária, se é que podemos chamar assim, do interior do Brasil foi constituída, como denúncia Vitor Leal Nunes na sua magnifica obra intitulada: Coronelismo, enxada e voto, publicado em 1949, na base do coronelismo.

Segundo este autor o coronelismo se nutria através do “sangue” do poder público, ou seja, estes velhos proprietários de terra locais quase falidos exerciam o poder, segundo Leal (1949, p.41) através do “mandonismo, do filhotismo, do falseamento do voto e da desorganização do serviço público local.” Nessa época esses proprietários de terras manipulavam os votos das pessoas que viviam nas zonas rurais, e sobretudo dos “funcionários” das suas, então decaídas propriedades, como moeda de troca com os políticos partidários locais; esses supostos coronéis, a maioria já quase pobre, se utilizavam do que restou da sua estrutura social já decadente para captar votos e se manter no poder.

Leal (1949) afirma que muitos deles (coronéis) só tinham um automóvel velho, não pagava sequer salário aos seus empregados [se é que podemos chamar assim], os quis, as vezes eram meeiros. Porém, estes apresentam-se como pessoas muito importante socioeconomicamente na zona rural. Esta impressão era politicamente aceita pelos seus subordinados, pois estes, se viam em desvantagem socioeconômica e, então, criava-se uma dependência ao seu “senhor”, e dessa forma, sustentavam o fenômeno do coronelismo da época; e assim, toda estrutura política burocrática do sistema público era passado para esses coronéis caso o seu candidatos ganhasse as eleições. Foi dessa forma que muitos senhores de terras sobreviveram por vários tempos e, é por isso, que ainda há resíduos deles nas políticas partidárias locais. Para maiores informações ver o livro de Palmeira e Heredia (2010), intitulado: A política Ambígua. Vale ressaltar que os filhos desses coronéis, a maioria na época, ingressavam na carreira do Direito ou da medicina.

Isto perdurou ate o final da ditadura civil-milita do Brasil (1964-1985), quando foi reimposta a democracia no Brasil após quase trinta anos de luta, resistência e morte. Contudo, paradoxalmente, nesse momento as eleições começaram a serem disputadas entre os filhos dos coronéis locais e, assim, foi inaugurada uma nova política no Brasil, a suposta política democrática e partidária. Nessa nova política os candidatos a cargos tanto no legislativo quando ao executivo em cidade, principalmente dos interiores, passaram a ganhar apoio dos descendentes dos velhos coronéis, que deixaram de viver essencialmente dos seus minifúndios locais, principalmente da cacauicultura e da cana-de-açúcar, para se tornarem grandes comerciantes nas pequenas cidades próximos das suas terras. O vestígio do coronelismo continuou só mudou de forma, ou seja, a democracia serviu como uma alquimista, que transformou o antigo coronel dono de terra mandante nos políticos e nas políticas em comerciantes e exercendo as mesmas funções políticas locais.

Os anos 1970 foi uma grande época de criação e atuação dos partidos políticos de esquerdas e progressistas, destaque para o surgimento do Partido dos Trabalhadores-PT fundado, principalmente pelos ex-presidente do Brasil: Luiz Inácio Lula da Silva; vale evidenciar que nas cidades pequenas, a maioria destes fundadores eram negros e pobres, ou seja, nesse ponto coloca-se como mínima a possibilidade de, nos anos de ferro da ditadura, sobretudo nos anos de 1970, ter algum descente do coronelismo, seja local, regional ou nacional, na constituição de partidos de esquerda; ou seja, nesse momento de embate os descendentes dos coronéis local estavam disputando as políticas em conluio com os militares – isto posto, havia representação do regime militar em todo território brasileiro, era disso que se valiam os coronéis para controlar a politica local. Esse resíduo grosso da velha política, do aparelhamento dos serviços públicos, se fez presente em todo território brasileiro ate os anos 2000, contudo esse velho habito na política local nunca deixou de existir, mudou somente as estruturas.

Quando houve a virada nos anos 2000 com o Partido dos Trabalhadores-PT se sobressaindo em todo território brasileiro, os então descendentes de coronéis – brancos que, em sua esmagadora maioria foram contra os partidos de esquerda progressista durante a ditadura civil-militar do Brasil, se sobrepuseram localmente aos negros, comunistas e socialistas diante das decisões dos diretórios da esquerda Estadual, destaque para o PT da Bahia que em 2008 quando elegeu 65 prefeitos, e foi justamente esse PT que se consagrou como apoiadores a tais candidaturas seja para o executivo ou legislativo, pelo seu partido ou por coligações, isso ocorreu sobretudo, nas pequenas cidades do Norte e Nordeste; ou seja, os fundadores principalmente do PT, que lutaram localmente contra os coronéis, são postos de lado e quem preenche esse quadro são os descendentes locais dos senhores da terra e, nesse momento comerciantes ou funcionários públicos concursados; foi onde o Partido dos Trabalhadores-PT juntamente com toda a esquerda errou; pois retirou suas bases e colocou pessoas sem espirito de luta e sem, principalmente, seguir a filosofia partidária – e isto, foi umas das causas que culminou no golpe de 2016 sob a presidenta Dilma Rousseff, ou seja, o golpe veio principalmente pela inercia dos executivos das cidades pequenas em aplicar um projeto amplo de trabalho, educação, saneamento básico, infraestrutura e etc., nas pequenas cidades. Isto feito, fortaleceria a sua estrutura política local e, hoje, o partido ainda teria força de ocupar as pequenas prefeituras locais e, assim, organizar suas bases novamente.

Mas sabemos que os descendentes dos antigos coronéis sempre estiveram, estão e estarão dispostos, como falou Leal em 1949, a sucatear o sistema publico em pro de seus familiares e de suas famílias. Logo não deixaria pretos, pobres, comunistas e socialistas ocuparem tais espaços.

Hoje o PT juntamente com o resto da esquerda está tentando sobreviver na política e se continuarem desse jeito, provavelmente, os filhotes do sistema político arcaico migraram para outros partidos ou se acalentaram no serviço público por intermédio dos seus contatos dentro da esfera estadual até que reapareça outros partidos de esquerda, centro ou de direita que eles possam se aproveitar novamente, como um sangue- suga. A história continuará a se repetir se a população não reagir de alguma forma.

Fábio Júnior da Luz Barros é graduado em Geografia pela UESC e mestrando pela UFSB no Programa de Pós Graduação em Estado e Sociedade.


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